Em 25 de outubro o país volta às urnas para o segundo turno da eleição presidencial. Dez dias depois, em 4 de novembro, o Copom decide a nova taxa Selic. Para quem pretende comprar imóvel em leilão nos próximos meses, essas duas datas importam mais do que parece; não pelo nome de quem vencerá, mas pelo caminho que a eleição percorre até chegar ao preço, ao crédito e à saída do investimento.
Como a eleição chega ao imóvel
A urna não altera, por si só, o valor de um apartamento. O efeito passa por três canais: a política fiscal do próximo governo; os juros, que reagem à expectativa sobre as contas públicas; e o volume de recursos públicos para habitação, como o Minha Casa, Minha Vida. Analistas do setor convergem num ponto: quem decide o mercado imobiliário é o ciclo de juros e crédito, e a eleição pesa na medida em que mexe nesse ciclo.
O primeiro turno, em 4 de outubro, mostrou isso na prática. No pregão seguinte, o dólar caiu mais de 4% e voltou a ser negociado abaixo de R$ 5, e a curva de juros futuros recuou em todos os vencimentos. Na semana seguinte, parte do movimento foi devolvida: o dólar retornou aos R$ 5 e os juros futuros subiram com as novas pesquisas. É o retrato de um mercado que reage a expectativas, e expectativas mudam.
O que os juros dizem ao arrematante
Os juros futuros antecipam onde o mercado imagina que a Selic estará. Desse custo do dinheiro dependem as taxas do financiamento imobiliário, o rendimento da renda fixa que concorre com o imóvel e a disposição dos compradores.
Hoje a Selic está em 13,75% ao ano, após corte unânime de 0,25 ponto em 16 de setembro. O Boletim Focus projeta 13,25% no fim de 2026, mas também elevou a expectativa de inflação para 5,22%, acima da meta. Há espaço para cortes, porém sem garantia de ritmo. Uma redução consistente depende, em boa parte, de o próximo governo sinalizar compromisso crível com as contas públicas; se isso não ocorrer, seja quem for o eleito, a queda pode ser mais lenta ou até interrompida.
O que a história ensina
A ideia de que “ano eleitoral trava o mercado” não se confirma nos números. Em 2018, ano de eleição e Copa do Mundo, as vendas residenciais cresceram cerca de 19%. Em 2022, o crédito imobiliário somou cerca de R$ 241 bilhões, o segundo maior volume da série histórica.
Em 2014, por outro lado, o Secovi-SP registrou forte queda nas vendas na capital paulista e apontou, entre as causas, a insegurança das famílias em assumir compromissos longos durante o período eleitoral. Mas aquele também era um ano de juros em alta e economia em desaceleração. O padrão se repete: o que pesa é o ciclo de juros; a eleição amplifica ou atenua.
O comportamento do comprador comum vai na mesma linha. Pesquisa da Loft com a Offerwise, feita em julho de 2026, mostrou que a maioria de quem tinha plano de comprar ou alugar não pretende mudá-lo por causa da eleição, embora acredite que o mercado como um todo possa desacelerar.
E no mercado de leilões?
Aqui está o ponto que mais interessa a quem arremata. A oferta de imóveis em leilão é alimentada pela inadimplência, e a inadimplência acompanha os juros. Em 2025, foram cerca de 300 mil leilões de imóveis no país, segundo levantamento da SPY Leilões divulgado pela Forbes; a Associação de Arrematantes (Abraim) aponta desconto médio de 37,3% sobre o valor de avaliação.
De forma simplificada, há dois cenários:
- Juros caindo de forma gradual: a oferta em leilão continua elevada por algum tempo, porque a inadimplência demora a recuar. Ao mesmo tempo, revender ou financiar o imóvel arrematado tende a ficar mais fácil. É a combinação mais favorável para quem compra com desconto e pretende vender.
- Juros parados ou voltando a subir: a oferta também segue alta, mas a saída fica mais lenta. O comprador final tem menos crédito, o prazo de revenda se alonga e os custos de manutenção (IPTU, condomínio, capital parado) pesam mais na conta.
Em períodos de incerteza, alguns pregões têm menos concorrência, o que pode abrir boas oportunidades. Mas desconto alto não é sinônimo de bom negócio quando a estratégia de saída depende de um cenário que pode não se confirmar.
Checklist para os próximos 90 dias
- Faça a conta com a Selic de hoje, não com a esperada. Se o plano é revender a um comprador financiado, simule o cenário sem nova queda de juros.
- Inclua todos os custos no prazo de giro: comissão do leiloeiro, ITBI, registro, eventual desocupação, reforma, IPTU e condomínio até a venda.
- Defina a saída antes do lance: revenda, locação ou uso próprio. Cada uma reage de forma diferente aos juros.
- Acompanhe três marcos: 25 de outubro (segundo turno), 4 de novembro (Copom) e os primeiros anúncios da equipe econômica eleita.
- Não deixe a conjuntura apressar a análise jurídica: edital, matrícula e processo continuam sendo o que separa a oportunidade do problema.
Resumo
- A eleição afeta o imóvel principalmente pelos juros e pelo crédito.
- A Selic está em 13,75% ao ano e a próxima decisão do Copom sai em 4 de novembro.
- Anos eleitorais não travaram o mercado no passado; o que pesou foi o ciclo de juros.
- No leilão, a oferta segue alta; a conjuntura define sobretudo a velocidade e o preço da saída.
Este texto tem caráter informativo, não constitui recomendação de investimento e não substitui a análise do edital, da matrícula e do processo de cada caso.
Fontes: Banco Central do Brasil, comunicado da 281ª reunião do Copom (16/09/2026); Boletim Focus de 13/10/2026 (via Canal Rural); Money Times e InvestNews (05/10/2026), sobre a reação do câmbio e dos juros ao primeiro turno; Portas, retrospecto do mercado imobiliário em anos de Copa e eleição (2014 a 2022) e pesquisa Loft/Offerwise, Onda 7 (jul/2026); Secovi-SP, pesquisa do mercado imobiliário de 2014 (via CBIC); Forbes Brasil e Registro de Imóveis do Brasil (jul/2026), dados SPY Leilões e Abraim.